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REMINISCÊNCIAS
Emília Possídio
Na entrada, uma porteira de madeira,
está lá...
O caminho que ia até a casa, também.
O fícus, ah! o fícus?!...
Onde minha mãe se assentava,
Uma tia costurava, sob sua sombra eu brincava,
ah! o fícus, eu soube,
morrera de sede, na seca.
Nem o tronco está mais lá...

O balanço pendurado na aroeira
que ficava no terreiro
apodreceu a corda, que droga!...
E o assento de madeira
virou lenha
se fez fogueira
Que pena!...que asneira!..
Vi que nele,
tem alguém a se embalar,
minha sombra,
que o fogo não pode queimar.
Estou lá...

O chiqueiro das cabras
feito de varas
construído na malhada,
do lado da casa do vaqueiro
sumiu de lá
não há mais nada
naquele lugar...
nem esterco, nem chiqueiro
nem cabras, cabritos ou bodes
nem porcos existem mais lá.

O riacho, o açude, o curral
estão lá - tudo tão diferente...
Nada parece daquele tempo...
Ah! tempo! Sumiu tudo, de repente,
parece que é outro lugar...

O angico, o umbuzeiro
que ficavam no terreiro
estão lá,
sem vida, não frutificam
nem os pássaros querem lá se aninhar.
Não ouvi zumbido de grilos
nem sabiá a cantar....

A latada de palha,
a varanda, com as rampas laterais;
a casa branca, branquinha,
com portas bem amarelas,
cor de laranja - forte da cor do sol -
pintadas todas iguais,
daquela cor nada mais restou,
acinzentou...

A porta da frente, minha gente,
sempre aberta,
tinha um batente,
onde eu subia e descia,
está lá,
o batente...

O etager, que servia de
altar para São José,
e a noitinha
nossas novenas rezar
não está mais lá
Não sei onde foi parar...

Não vi o João, Joaquim
José de Lúcio, um irmão
outro irmão, meu pai...
que tanto gostavam de lá, não os vi,
Soube, hoje, moram na amplidão...

Não vi acender lampião
não tem labuta, nem luta
Não tem vaca no curral

Tem a serra, ainda tem a terra
tem saudade matadeira
não tem roda no terreiro
nem o som do violão
Tem um grito,
O meu grito...
Eco distante ...
Alma palpitante...
Ninguém te escuta...
Te aquieta coração!....

Fortaleza, 17.02.2004
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