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Dor
Emília Possídio
Abraço um céu
Sem estrelas e sem luz
Abro o véu da noite
Entro sem bater...

No regaço da escuridão
Piso de leve no chão
Para não machucar as vestes do vento
Que podem acordar tempestade
E levar um fio de felicidade
Que possa restar em mim...

Deito silenciosa e encolhida,
No travesseiro de uma lua minguante
Com o cheiro da dor que sangra
De um amor crescente.

A alma chora dorida,
Num silêncio irritante...
Tudo são sombras
Na dimensão da noite.
O coração se cala,
nada fala...
Parece ave medrosa que se esconde
Temerosa do açoite do tufão.

Abraça-me a melancolia!
Cobrem-me pedaços de estrelas sem fulgor
Estilhaços de uma noite pura dor...
Com as vestes do negror da agonia
Dispo-me de qualquer rancor. Desperto...

Piso de leve, pés descalços
Mãos vazias...
Abro a porta do outro dia,
Sem bater...
Para não acordar
A dor que ainda possa viver!...
Fortaleza, 02.08.2005
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