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Século XXI! Já nasceu disposto a se caracterizar
como o Século da “beleza pura”.
Existem tantas e tantas fórmulas mágicas
para
rejuvenescimento, que tem gente
já imaginando nunca envelhecer.
A ofensiva contra as rugas, a flacidez dos tecidos,
a queda de cabelos, cujo colorido impõe quase
que a extinção dos respeitáveis cabelos brancos
é tão eficiente, pelo menos em termos de mídia,
quanto os mísseis teleguiados que os norte-americanos
“encaminham” como pacote de presente nas suas
“guerras santas” contra o mal. E aí, diante dessa avassaladora propaganda em prol da
“juventude eterna”, perguntei-me se o envelhecimento
não está com seus
dias contados.
O Estatuto do Idoso, a mais nova regra
jurídica
que consagra necessários privilégios a quem
alcançou certa idade, pelo andar da carruagem,
no futuro tornar-se-á letra morta, ou, tal qual o crime
de adultério, que permaneceu vigente durante longos
anos no nosso Código Penal, existirá mas ninguém
ousará aplicá-lo. Certa vez se disse para não se confiar
em mulher que desnude sua verdadeira idade,
porque se ela assim agir, é capaz de qualquer coisa! Mudaríamos o adágio para indicar que, ninguém,
e não só as mulheres, ousaria dizer a idade, aliás,
a idade poderia até ser um objeto de descarte.
Manteríamos, apenas, a data do nascimento, sem
necessidade de contagem anual dos aniversários.
Pouco importa a idade, já que a juventude corporal
a engoliria com a mesma ferocidade que um
rinoceronte defende sua cria.
É... A coisa anda complicada para quem pretende
envelhecer – eu diria – de forma natural. Daqui a pouco,
o cidadão que desejar envelhecer sem acessar os
produtos, cirurgias e todas as técnicas de rejuvenescimento, será olhado assim, meio de lado,
como se estivesse à margem da sociedade.
Você não acredita nessa possibilidade?
Então tá! Dê só uma regressadinha para uns vinte
anos atrás, quando o computador não era um elemento
popular (eu diria inexistente no plano fático para a
maioria dos cidadãos) e compare com os dias atuais.
Quem teve filho naquela época antiga, poderá tê-lo
presenteado, no máximo, com alguns joguinhos,
a
exemplo de um tal “Telejogo” ou outro chamado de
“Atari” (esse, inclusive, já mais próximo da atualidade).
Abaixo da linha dos vinte anos atrás,
nenhum jovem
certamente pensava nisso.
Hoje, os meninos e meninas de pouca idade sabem
tudo de computação, principalmente no que diz respeito
à chamada rede mundial de computadores – Internet.
E se você é pai de uma dessas crianças “gênios”,
certamente já ouviu pelo menos a insinuação de que
você está ultrapassado em questões de informática;
e se você não ouviu, então, parabéns: você é um pai
ou uma mãe esforçados que resolveram se render à
evolução tecnológica (e a vontade dos filhos)
e aprender manejar essas máquinas do futuro.
Se você integra a primeira hipótese, o amiguinho
ou amiguinha de seu filho, provavelmente,
quando descobrirem sua deficiência – se não já
a descobriram – olharão você meio de lado,
pensando: - rapaz, o pai e a mãe de Zequinha
não sabem “navegar” direito na internet.
E o orkut? Nunca ouviram falar.
Que é isso m’irmão?!
Pois é. O velhinho natural do futuro certamente
será tratado como o pai atrasado que nem sabe
“navegar na net” do presente.
É um sujeito, realmente, fadado à extinção.
Até o Papai Noel terá que se reciclar,
aposentar as suas queridíssimas renas,
e talvez utilizar um meio de locomoção mais ágil
e moderno, condizente com a era cibernética.
A única preocupação que tenho com isso tudo
é que as pessoas, parte delas evidentemente,
estão perdendo o bonde da história.
Não falo de previsões futurísticas, porque isso
deixo por conta da imaginação do Spilberg
(não sei nem se é assim que se escreve o nome
do cineasta) e outros competentes diretores do cinema;
falo do envelhecimento, do amadurecimento,
da visão lúdica, bela, sensata e positiva da vida,
sem adesão às fórmulas mágicas que,
de vez em quando, tornam a pessoa mais distante de si
e da realidade que o cerca.
Não sou contra o afago (que penso deva ser equilibrado)
da vaidade, muito menos contra cirurgias plásticas
ou qualquer outro método de mantença
ou melhora
da saúde corporal.
Seria louco se pensasse assim.
Sou favorável, entretanto, a que as pessoas
se assumam – com ou sem tratamento de beleza –
e que o mundo não seja superficial,
siliconado e adaptado a estereótipos robóticos.
A velhice, que chegará para todos, não é um martírio.
Eu me recordo bem de minhas avós,
inclusive uma morreu quando eu era ainda criança
(em 1982 eu tinha apenas 9 anos), porém me lembro
bem de suas feições, de seu sorriso,
e sempre a achei linda.
A velhice, é bem verdade, traz consigo dificuldades,
contudo, a beleza interior suplanta qualquer ruga,
qualquer problema de locomoção ou de doença.
A nossa evolução espiritual tem que ser
satisfatoriamente boa a ponto de impedirmos que as
nossas vaidades superem a nossa beleza interior;
a ponto de impedir que nos faça enxergar quantas
pessoas maravilhosas nos amam e precisa de nós
e essas pessoas estão se “lixando”
para as rugas que possuímos.
Gente: Acorde!
É um bem da vida envelhecer!
Envelhecer para ver seus filhos felizes,
com suas famílias e filhos;
para ver seus netos crescerem, se formarem e
caminharem no sentido de constituírem suas famílias;
enfim, para compartilhar com quem amamos tudo
aquilo de bom que carregamos nos nossos corações.
Eu que perdi meu pai ainda jovem
(na minha modesta ótica), gostaria muito,
p. ex., de tê-lo visto envelhecer um pouco mais
do que os 59 anos vividos e que ele estivesse
aqui agora, com rugas, com dificuldades, mas
com o sorriso franco que era sua marca peculiar,
sua alegria, seu compromisso com a família,
seu amor por todos os seus.
Então, felicito você que envelhece sem traumas.
Envelheça e compartilhe suas experiências,
sua sabedoria, sua beleza (a física e a interior),
com sua família e com todos os que os amam de verdade.
Vocês verão que a felicidade não está aquém, nem além do espelho: ela está presente em tudo de bom que se
acredita e se busca, principalmente em VOCÊ MESMO!
Salvador, 07.10.2005
crispossidio@uol.com.br
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